Consumo Consciente

Desapego: O lucro que fiz com o meu | ciclou

Desde que comecei a ciclou, até antes disso, sempre prezei por uma vida com pouca bagagem. Sabe quando você vai viajar e consegue levar uma mala pequena, mas com tudo o que precisa e ao mesmo tempo você consegue carregar sem deixar aquela bagunça para viagem? Pois bem, é essa bagagem que eu acredito que devemos levar para vida. Deixar o que é excesso e pesado para trás e carregar apenas o que é importante e o queremos usar todos os dias.

E nesse processo de “limpeza”, eu segui muito a técnica da Marie Kondo, guru japonesa de organização, percebi que o processo de desapego das coisas tem que necessariamente passar pelo apego das coisas. E o mais importante é saber reconhecer esse apego, pois lá na frente vai fazer toda a diferença.

Aprendi que tudo bem você ter apego por algumas coisas, isso não te torna mais consumista, com certeza você será uma pessoa que reconhece o valor de algo, que cria uma conexão com coisas materiais de afeto e memórias que são intangíveis. O que não é coerente é você ter apego por MUITAS coisas, porque o apego vem de um motivo do tipo”quero ter isso” e menos “quero usar isso”, o que talvez possa transformar a sua vida em um armário de peças estocadas, com manchas de tempo e não vividas.

Foi nessa época que tive aprendizados maravilhosos, como por exemplo:

  • Nem sempre as peças que mais usamos, são as que mais gostamos.
  • O quanto de dinheiro eu gastei com peças novas, eu poderia ter arrumado as peças que eu gostava de fato.
  • A história da roupa, por onde passei com ela, onde comprei, como foi feita, quem me presenteou, contava muito para mim.

E dentro desse processo, eu também encontrei novos problemas, como: o que fazer com o que não gostamos, mas ao mesmo tempo vamos precisar usar? O que fazer com as peças que amamos, mas que não são mais úteis? Bom, foi para conseguir dar um novo ciclo de vida para essas peças que nasceu a ciclou.

Mas além de criar um modelo de negócio novo e criar uma nova marca sustentável no mercado, eu adquiri muito mais do que um propósito de vida, eu encontrei um novo rumo de carreira para mim. É sobre esse ganho e esse lucro que gerei a partir do meu desapego que quero falar aqui pra vocês.

Menos uma bagagem emocional

Desapego é um conceito filosófico e espiritual que refere-se à libertação do apego a bens materiais, mas emocionais também. Ele, portanto, tem o poder de reduzir o estresse, a ansiedade e o sofrimento, permitindo que as pessoas vivam de forma mais tranquila e presente no agora.

Para mim, ajudou a reconhecer a Amanda que eu já fui, mas não queria mais ser, desapegar de um peso do que as pessoas “esperavam” que usasse. E sabe quando alguém diz que você precisa manter àquelas peças da moda como: uma calça curta, apertada, larguinha, de cintura alta, baixa, mais chique, mais básica ou um blazer liso, blazer estampado, blazer colorido, talvez um vestido curto, vestido ousado, vestido formal, vestido casual, uma minissaia, um sapato alto, um casaco de neve, uma fantasia de carnaval, um pijama deinverno outro de verão, sexy e confortável, e assim a lista não tem fim. Desapegar dessas “obrigações” pensando em uma lista de acontecimentos e situações que você nem faz questão mais de passar, é um alívio, você não vai mais vestir e ser o que as pessoas querem que você seja. Vai apenas usar o que você gostar sem se importar o que os outros pensam ou que esperam de você.

E no meio de tantas peças sem sentido, e uma lista imaginária de e “SE “cheias de obrigações, eu encontrei quem eu realmente era. Encontrei as minhas peças, as que eu realmente queria usar, as que eu gosto, as que faziam sentido. Comecei a construir o guarda- roupa que eu queria de verdade. Nesse processo lento e doloroso, me livrei de uma bagagem a menos para carregar, a emocional.

Foco, tempo e energia

Uma vez que as coisas sem sentido saem da sua vida, o que faz sentido volta a aparecer e a te encarar, como a sua saúde, suas relações, sua alimentação, seus hábitos e seus objetivos de vida. No fim, o desapego também foi importante para eu ter um foco maior no que eu precisava fazer no dia e menos no que eu precisava “aparecer” no dia. Pense na geladeira cheia de coisas para comer, você fica um tempinho com a porta aberta da geladeira escolhendo uma das opções que vai querer comer naquele momento? Agora, imagina uma geladeira quase sem nada, sem opções, você vai demorar menos tempo para saber o que vai comer.

Da mesma forma, um guarda-roupa enxuto te permite poupar tempo see arrumando, ou ficar com dúvida do que vestir. Não é por acaso que alguns pessoas estão sempre com a mesma roupa. E quer saber? Você também tem esse direito, se quiser.

Mas no meu caso, eu não queria usar a mesma roupa todo dia, eu estava resgatando o meu lado mais criativo, sensível e que ama arte. Porém, tendo menos opções, e que me identificam. É libertador! Para ser honesta, faz dois anos que tenho praticado cada vez mais desapegos, é um processo crescente. E quando você precisa comprar algo novo, é muito mais fácil e honesto escolher uma peça apenas que você precisa.

Engajamento social

O desapego também tem benefícios sociais, pois ajuda as pessoas a se concentrarem mais nas relações humanas e menos nas coisas materiais. Isso pode te ajudar a ter relacionamentos mais saudáveis e significativos. Além disso, você pode doar as coisas que não precisa mais para pessoas carentes ou até vender esses itens por preços menores. Dessa forma, você vai ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas menos afortunadas e contribuir para que mais pessoas possam se beneficiar daquele produto. Porém, já aviso, pergunte primeiro se a pessoa está mesmo precisando, senão vai acabar saindo de um estoque da sua casa para a casa de outra pessoa.

Quando era criança sempre recebi roupas de uma amiga mais velha, praticamente só usava as roupas dela, eu adorava. Quando começei a ficar mais “velha”, já era mais difícil acertar os tamanhos, mas quando criança, é uma excelente opção ter alguém que “te passe” ou vice-versa.

Agora, depois de adulta, eu fiz uma experiência muito legal com algumas amigas. Cada uma fez uma sacola de peças que não usava mais e cada semana as peças ficavam com uma pessoa para escolher o que queria ficar. Dessa forma, trocamos peças entre as amigas, sem gastar dinheiro e demos um novo destino para aquela roupa que parou de usar. Eu super indico, mas funciona melhor se as amigas tiverem corpos similares. No começo, sempre mandava fotinho para elas usando a roupa garimpada, isso cria um elo muito legal também com as pessoas, mais do que qualquer presente superficial, sem propósito, que você possa dar para alguém.

Recuperando Recursos

É muito comum ao longo da vida acumularmos coisas, gosto de dividir em três motivos:

  • Coisas que não são mais úteis, mas que temos uma lembrança boa;
  • Coisas que achamos que um dia vai nos ser útil;
  • Coisas que estão quebradas e que achamos que um dia vamos conseguir usar novamente.

Os três motivos gera um “ativo” inútil, que vai depreciar com o tempo, o mais inteligente a se fazer nessas três situações, é doar, vender, ressignificar, concertar e se no futuro faltar, pegar emprestado com alguém ou alugar. E olhando mais o conceito de economia circular, esse “estoque” de matéria-prima e desperdício de recurso natural à toa, faz um mal danado para o planeta por conta dos nossos hábitos terríveis de consumo, gastamos quase duas vezes mais recursos naturais do que o planeta pode regenerar-se.

A conta não é só pelo recurso monetário que você despendeu é por consequência, também, de horas suas de trabalho em troca de um produto que não é usado, mas também é uma troca por recurso natural que não vai ser renovado e matéria-prima que poderia estar cumprindo outros propósitos. Aprendi que parte do recurso monetário despendido pode ser recuperado (alô mercado de segunda mão), e parte da matéria-prima também ( alô upcyclers e recicladoras), mas o recurso natural, se estamos ultrapassando a quantidade que o planeta consegue regenera-se, não dá para recuperar.

O seu m² mais desvalorizado

Não sei se já parou pra pensar, mas você está pagando aluguel para tudo que fica na sua casa parado sem uso, ou seja, você está pagando m² para que as suas tralhas se desvalorizem. Triste, né? Mas tanto é verdade, que muitas pessoas acabam se mudando para casas maiores com o tempo, não necessariamente para caber novos entrantes da família ou criar novos espaços de experiência, mas para caber todas as tralhas na nova casa de forma mais “confortável”.

Parece trágico, mas é mesmo. O engraçado, é que você também acaba gastando ainda mais com móveis adicionais só para organizar uma bagunça, que nem devia estar ali, além dos produtos de limpeza para higienizar as coisas que você nem usa. Enfim, ao invés de valorizar a sua casa e espaço com coisas que te fazem bem e que vão te desenvolver ou deixar o seu dia mais alegre, bonito e saudável, você está desvalorizando o seu imóvel, transformando-o em estoque sem giro. Imagina aquele aparador que você nunca mais abriu se transformar em piano? Ou aquela mesa cheia de tralha, em um quebra-cabeça para montar, as caixas encostadas na parede se transformarem em uma hortinha orgânica, o entulho na sala virar uma casinha de cachorro? As oportunidades são infinitas.

Dicas para você desapegar:

A boa notícia é que percebi que quanto mais você desapega, menos vontade de comprar novas coisas sem sentido você terá. Na verdade, você começa a refletir mais sobre seus hábitos e do que você realmente precisa na sua vida, sem cair tanto nas armadilhas de comprar por impulso, nos tornando mais conscientes sobre o impacto de nossas escolhas de consumo.

E tem como você começar com coisas pequenas, ou quem sabe fazer uma limpeza de uma vez. Eu aprendi muito com a Marie Kondo, que tem série dela também no Netflix, mas vou trazer algumas dicas aqui para vocês:

  1. Comece fazendo uma limpeza nos armários, naturalmente você já vai tirar algumas coisas da frente. E não vale terceirizar essa tarefa, viu?
  2. Faça uma caixa de peças para doar, outra para concertar ou transformar e outra para vender.
  3. Pense em como cada item lhe traz felicidade ou realização. Se você não sente nenhuma dessas coisas, considere desfazer dele.
  4. Faça perguntas práticas como, “este item está ajudando a atingir meus objetivos ou está me impedindo de alcançá-los?”
  5. Seja honesto com você mesmo sobre o quanto você realmente usa ou precisa de um item. Se você não usa há muito tempo, é provável que nunca vai usar novamente, e se não quiser mesmo se desfazer dele, a ciclou tem muitos serviços de transformação para você começar a usá-lo novamente, com um novo propósito.
  6. Seja realista sobre sua capacidade de armazenamento. Se você não tem espaço para guardar algo, é provável que você não precise dele.
  7. Lembre-se de que desapegar de coisas não é sobre se desfazer de tudo o que você tem, é sobre libertar-se de coisas que não lhe servem mais e deixar espaço para o que realmente importa.

Agora, tudo isso, como eu disse, foi antes de começar a ciclou. Conforme a ciclou foi crescendo, esses aprendizados se desenrolaram de outra forma, e por isso, vou deixar por enquanto aqui uma promessa de parte 2, focada nos empreendedores de plantão, porque desapegar de coisas pessoais e profissionais são coisas totalmente diferentes e também dá um trabalhão.

continua…

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